sábado, janeiro 31, 2009

Gozo



Viro, reviro,
Revido.
Torço
Abraço
Atiro
Me afasto.
Grito
Afago
Aninho.
Me deito
Te agarro
Nos mordemos
Nos amamos.
Num impulso
te expulso.
Me seguras,
Penetras,
Me apertas
Te enlouqueço
Gozamos.
Eita, doidera boa!

Léa Waider

Foto:Stanmarek

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Quem me roubou a razão?



Quem me roubou a razão e me fez poeta?
Quem me plantou este verde dentro
E me fez desejar ser vento
E me fez desejar ser mar?
Quem me colocou nas mãos este fardo imenso
De dar voz ao sofrimento
De dar cor às lágrimas que verto
De ser verbo e verso a chorar?
Quem me traçou linhas e vida
E as juntou
E as tornou uma
E se escrevo vivo
E se vivo escrevo
E se as canto sou?
Quem me roubou a razão e me tornou insana
E me deu a voz e me deu o verbo
Se não o quero nem murmurar?

Encandescente, in"Palavras Mutantes", pág.55

Foto:Margarida Delgado

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Quero



Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
dementes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

Imagem retirada do Google

quarta-feira, janeiro 28, 2009

As minhas tuas mãos



Olho para as minhas mãos
e súbito vejo as tuas
Agora que envelhecem
começam a ser tu
não propriamente nas feições
mas no olhar no sorriso
na presença

É verdade que as tuas foram bem mais castigadas
pela vida:
lavaram roupa antes das máquinas de lavar
a loiça antes dos detergentes
cozinharam em fogões antes de haver gás
amassaram o pão em alguidares de barro
estenderam-no em tabuleiros de madeira
fizeram queijo com flor de cardo
e ao mesmo tempo costura trabalhos de agulha
e bastidor
até de bilros
Nos dias de festa
matavam galinhas coelhos até cabritos
que mais ninguém tinha coragem de sacrificar
(mas eras tu a destemida sacerdotisa
tinha que ser)
Depois regalavam a família
com tachos e panelas fumegantes

Ao serão ainda tricotavam agasalhos
para pequenos e grandes
raramente para a própria dona

Hoje
as minhas mãos lembram-se
desses serões e madrugadas
como de uma perdida juventude

Teresa Rita Lopes visto na Eli

Foto retirada do Google

terça-feira, janeiro 27, 2009

Um homem na cidade



Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que se desagua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!

Ary dos Santos

Foto retirada do Google

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Para a Fatyly:)

Zélia Duncan-Canção da América



Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou
No pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou
No pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a
Distância digam não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier
Venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto
Pra te encontrar
Qualquer dia amigo
A gente vai se encontrar

Milton Nascimento

Muitos parabéns Fatyly, muitas felicidades e muitas beijocas:)))

domingo, janeiro 25, 2009

Sátira aos HOMENS quando estão com gripe



Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes

sábado, janeiro 24, 2009

Por distracção



Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cuidamos como parte de nós próprios.

Mais tarde, diremos "Bom-Dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.

Manuel Filipe

Foto retirada do Google

sexta-feira, janeiro 23, 2009

“fado...”



Amália nascera muda; Alfredo, surdo, somente aprendera a articular uns grunhidos, pelo que a linguagem corporal lhes bastava. Os dias passavam sem que houvesse necessidade do uso de palavras. Mas quando o sol se punha, Amália despia-se e, nua, ficava em frente da janela aberta, deixando o bafejo lisboeta beijar-lhe a pele e despertar-lhe a voz dos sentidos, enquanto a noite lhe cobria os ombros com um xaile negro. Alfredo, ouvindo o chamamento das estrelas que assomavam, erectas, nos seios de Amália, despia-se também e deitava-se na cama, à espera da amada. Lentamente largando o xaile, ela deslocava-se, arrastada, lânguida, para cima do corpo do amante. E a cada movimento licencioso de Amália, Alfredo gemia, como uma guitarra, sentindo enterrar-se cada vez mais no refrão do fado que ela, em silêncio, cantava.

Valter Ego visto na Minguante

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Tons



Em verdes e azuis
relembro os dias
em que a música
tocava docemente
no expectante silêncio
de duas bocas.

Paula Raposo, in"Golpe De Asa", pág.12, Apenas Livros

Imagem retirada do Google

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Presença Africana



E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...

- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...

Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

Alda Lara

Imagem retirada do Google

terça-feira, janeiro 20, 2009

É ela! É ela! É ela! É ela!



É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Álvares de Azevedo

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Um anjo erra (o amor confuso)



Um anjo erra
nos teus olhos diurnos

humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas

místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas

cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala

ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida

colocamos um sonho
em cada nicho

e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.

Sebastião Alba

Foto retirada do Google

domingo, janeiro 18, 2009

Nirvana



Ser como uma árvore na paisagem,
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.

Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.

Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.

Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.

Jorge Viegas

sábado, janeiro 17, 2009

Ritual do silêncio



É do ocaso que te quero falar:
- Da angústia que se esvai;
Com ela o sol.
Da hora em que o silêncio ainda é tão leve
que nem sequer a brisa o trai.

Verás o tempo estagnar
no intangível esbater da cor.
Os cinzas e os cobres em que repousam
os verdes e os azuis.

Quero falar-te do desassossego dos pássaros,
prenúncio da calma de mais uma noite,
e, da paz intensa, mas tão breve,
que gostava de partilhar contigo,
meu amor.

Manuel Filipe, in"Poemas De Manuel Filipe", pág, 54. Edições Manuel Filipe

Foto retirada do Google

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Prémio

A Maria de Fátima nomeou-me para este prémio, o qual agradeço.



Tem regras:

- copiar o prémio e colar no seu blog
- fazer referência do meu nome e colocar o endereço do meu blog
- presentear seis Mulheres cujos blogs sejam uma inspiração para si
- deixar um comentário nesses blogs para que saibam que ganharam o prémio

Mas curioso!! este prémio, deverá ser atribuido só a mulheres!!!

Como já fiz anteriormente, passo a todas as mulhers que me comentam e que me lêem, pois escolher só seis seria uma injustiça:)

Cotovia



— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

Manuel Bandeira

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Santo e Senha



Deixem
passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada

Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão
Que vai ser uma estrela no chão.

Miguel Torga

Foto retirada do Google

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Ginástica artística

video

Isto nem o Cristiano Ronaldo faz:)

Jardim Perdido



Jardim
em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura
das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia
em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada
gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Imagem retirada do Google

terça-feira, janeiro 13, 2009

Dos nossos males



A nós bastam nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...

Mário Quintana

Os limites do autor



Às vezes, ocorre
um autor estar
aquém
- do próprio texto.
De o texto ter-se feito,
além dos dedos,
como gavinha que inventou
a direção de seu verde,
e fonte que minou
o inconsciente segredo.

Um texto ou coisa
que ultrapassa a régua,
a etiqueta e o medo,
copo que se derrama,
corpo que no amor
transborda a cama
e se alucina de gozo
onde havia obrigação.
Enfim, um texto operário
que abandonou o patrão.

Às vezes ocorre
um autor estar aquém
da criação.
O texto-sábio
criando asas
e o autor pastando
grudado ao chão.

- Como pode um peixe vivo
estar aquém do próprio rio?
- Que coisa é esse bicho
que rompe as grades do circo
e se lança na floresta
no descontrole de fera?
- Que coisa é essa
que se enrola?
É fumaça? ou texto?
que se alça do carvão?

Lá vai o poema ou trem
que larga o maquinista
na estação
e se interna no sertão.
Ali o poema
olhado de binóculo
- só de longe tocado -
e o autor, falso piloto
largado na pista ou salas
do aeroporto, atrás do vidro,
enquanto o texto
levanta seu vôo cego
com o radar da emoção.

Enfim,
um poema que vira pássaro
onde termina a mão
ou avião desgovernado
que ilude o autor e a pista
e explode na escuridão.

Affonso Romano de Sant'Anna

Foto retirada do Google

segunda-feira, janeiro 12, 2009



Lá onde se precipita
o tempo
são rasas as lágrimas,
e a saudade
é uma memória
apagada mas feroz.

Lá onde não há vento.

Paula Raposo, in"Golpe De Asa", pág.13, Apenas Livros

Foto retirada do Google

domingo, janeiro 11, 2009

Balõezinhos



Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
— "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa:
— "O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um círculo inamovível de desejo e espanto.

Manuel Bandeira

Imagem retirada do Google

sábado, janeiro 10, 2009

Canção da Primavera



Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
pois que maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar flor, já não dou.

Eu, cantar já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul,calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arripio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar,não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio

sexta-feira, janeiro 09, 2009

E o resto é silêncio...



E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
.
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sózinhos...

J. G. de Araújo Jorge

Imagem retirada do Google

quinta-feira, janeiro 08, 2009

No dormitório do colégio interno



A Lua tinha
uma trança longa e negra
e dormia na cama
junto à minha
debaixo da janela.
Era asmática a Lua
e o ar da noite fria
o ar todo ao redor
não era suficiente
para ela.
Eu ia buscar-lhe água,
os pés descalços
sobre os azulejos
nos corredores cheios
de fantasmas,
e ela se debruçava
sobre o copo
sorvendo lentos goles
de via-láctea.
Mas só com a chegada
da manhã
quando tocava o sino da capela
cessava a asma.
A luz branca se punha
sob a pele
e vinha então o sol
tomar-lhe a boca.

Marina Colasanti

Imagem retirada do Google

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Segredo



Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta

terça-feira, janeiro 06, 2009

Tempos



Eu sempre soube da verdade em teus olhos.
O que eles me disseram mantive guardado,
fora do alcance das conversas.

Havia um tempo em que a despedida
principiava um outro encontro,
escondido dos olhos e das conversas.

Havia um tempo com um doce cheiro no ar
de todos os perfumes.
Uma busca constante do olhar,
um gosto a mais nas coisas...
Era batom!

E era depois a pele,
o deslizar dos cabelos,
o afago das mãos...

A casa cheia de nossas conversas,
dos modos, das esperas e demoras.
Uma vida em tantos acordar!

Era por fim um outro olhar,
sem mais as mesmas verdades
(embora nunca mentiras).
Mas sem as mesmas respostas.

Outras vozes agora falam no nosso silêncio.
Mudamos os rumos,
os olhares,
o sentido da conversa.

Celso Brito

Imagem retirada do Google

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Prescrição para males de amor



"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer"

Ah Camões
Se vivesses hoje em dia
Tomavas uns anti-piréticos
Uns quantos analgésicos
E Xanax ou Prozac para a depressão
Compravas um computador
Consultavas a página do Murcon
E descobririas
Que essas dores que sentias
Esses calores que te abrasavam
Essas mudanças de humor repentinas
Esses desatinos sem nexo
Não eram feridas de amor
Mas somente falta de sexo.

Encandescente, in"Encandescente", pág.5, Colecção Polvo

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domingo, janeiro 04, 2009

Lenda dos sonhos



Noite
lenta, eterna, magia dos espíritos...
Apalpo a distância do movimento...
O brilho profundo do luar
Aquece o gesto sentido do amor
E transformo-te na lenda dos sonhos.
As estrelas cantam o brilho sublime
Dentro da ternura do teu olhar
Reflectindo sobre a imensidão do oceano
O calor sensual do teu abraço.
Murmúrios delicioso povoam os céus
Embalando a doçura dos teus beijos
E o arco-íris eleva-se no horizonte
Colorindo as ondas quentes dos teus cabelos
Por onde navegam as verdades dos teus sentimentos.
Os sentidos flutuam pelo aroma verdadeiro
Da simplicidade da tua generosidade
Criando a simbiose dos teus desejos.
Na canção embriagante dos sinos celestiais
Envolvo-me na tua sinceridade
E torno-te eterna dentro do meu peito.

Jorge Viegas

Imagem retirada do Google

sábado, janeiro 03, 2009

A um gato



Os espelhos não são mais silenciosos,
nem mais furtiva a alva aventureira;
sob a lua, tu és essa pantera
que de longe avistamos, cautelosos.
Por obra indecifrável de um decreto
divinal, procuramos-te vãmente;
mais remoto que o Ganges e o poente,
são teus a solidão e o mais secreto.
Teu lombo condescende com a amorosa
carícia desta mão, já admitido
tens desde a eternidade que é olvido
todo o amor da mão tão receosa.
Em outro tempo estás. És tu o dono
de um âmbito fechado como um sonho.

Jorge Luís Borges

Foto retirada do Google

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Acordeon



Quando te tenho sobre os joelhos
penso que sei tocar Acordeon,
e brotam notas dos meus dedos
que eu sei bem que tu ouves
porque os teus olhos estão dançando um tango.

J. G . de Araújo Jorge

Pintura retirada do Google

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Passagem do Ano



Passagem do Ano.
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gesto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

Imagem retirada do Google