segunda-feira, junho 30, 2008

Albertina



ou O insecto-insulto ou O quotidiano recebido como mosca

O poeta está
só,completament só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstracção,alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto que seja de beleza.
Mas o poeta
é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa,aquela
Que tantas vezes arrastou pelos cabelos...
*
A mosca Albertina,
que ele domesticava,
Vem agora ao papel,com um insecto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava...
Quase mulher
e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica,mosca-mulher,por ali...
*
-Albertina!,deixa-me
em paz,consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!
-Albertina!,eu
quero um verso que não há!...
*
Conjugal,provocante,moreno
e azulado,
O insecto levanta,revoluteia,desce
E,em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora com um insulto alado.
E o poeta
sai de chofre,por uns tempos desalmado...

Alexandre O'Neill

Imagem retirada da net

Álcool



Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro

Foto:Piotr Kowalik

domingo, junho 29, 2008

Velhos



Eles andam em círculo, sem soltar lamentos,
convocam suaves, as pequenas coisas,
as roupas escuras, as sumidas loiças,
e velhas molduras, com rostos cinzentos.

A noite odiada irrompe na casa
transpondo impassível,o pó da vidraça,
e as cortinas tremem, pela sua mão;

com hesitação, penetram no sono,
dos dedos escorrem dias esvaídos,
e com movimentos, tão só pressentidos
semeiam no espaço rastos de abandono.

Manuel Filipe, in"Nas Palmas Da noite", pág.47, Apenas Livros

Foto:Yuri Bonder

sábado, junho 28, 2008

Coitos Interruptus



Já li poemas eróticos com palavras tão complicadas
que entre o decifrar da cópula e a busca do dicionário
Perdi o tesão de ler!
Já li poemas, que supunha de amor
Em que no fim fiquei a pensar:
Afinal...Ele disse:Eu amo-te...?
Ou o gajo odiava a gaja?
Posso ser simplista
Conhecer poucas palavras
Ser até considerada inculta.
Mas quando a palavra é
Tão intelectualizada
Complicada e racionalizada
Que precisa ser decifrada
Fecho o livro
Digo merda
mando quem escreveu
Para o raio que o parta.
Precisava complicar tanto?
Que perdi o tesão de ler?

(Baseado em experiências verídicas)

Encandescente, in"Palavras Mutantes", pág.14, Editora Polvo

Foto:Janosch Simon

***



"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector

Foto:Margarida Delgado

sexta-feira, junho 27, 2008

Novo epitáfio para uma velha donzela



Não conheceu do amor as vãs complicações
Nem o prazer e as suas decepções.
Por isso é que os fiéis das sensações
Tiveram sua vida por frustrada.
Viveu de leve, humilde e afável, encerrada
No mistério sem mito em que morreu.
Da sua vida mais intensa, nada
Chegou ao mundo, que não era seu.

Sobre esta laje fria,
Por memória
Dessa ignorada história
Inscreveu esta coisa fugidia
Aquele de quem foi secretamente amada.

José Régio

Foto:Kadir Barcin

Gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

Foto daqui

quinta-feira, junho 26, 2008

As amoras



O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

Imagem daqui

Coisa Amar



Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te logamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

Foto:Zacarias Pereira da Mata

quarta-feira, junho 25, 2008

Pedro Abrunhosa - Quem Me Leva Os Meus Fantasmas



Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
Eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.

Quem leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?



Foto:Pierre Belhassen

Mas há a vida



Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector

Foto:Yuri Bonder

terça-feira, junho 24, 2008

Ode ao Tejo e à memória de Álvaro de Campos



E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.

Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

Adolfo Casais Monteiro

Canção amarga



Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
--- Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
--- Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!

David Mourão Ferreira

Foto:Stanmarek

Navegando nas emoções



Ao brilho do luar
Abrem-se as campânulas de silêncio
E o grito de alegria
Confunde-se com a magia das vagas quentes.

De súbito, o mar irrompe pelos sonhos
Transportando o olhar encantado
Da sereia bronzeada pela imensidão da noite.

Faz-se luz na enseada da vida
Os cânticos românticos
Vagueiam pelos recantos das grutas
Acordando aromas enfeitiçados
Acendem-se fogueiras de mitos
Aquecendo corações perdidos nas falésias do amor
E dança-se à volta da fronteira do desejo.

As estrelas iluminam a sensualidade dos actos
Inspira-se a pureza do universo
E na suavidade da corrente
Viajamos dentro da inocência dos sentidos
Reconstruindo sonhos antigos.

Jorge Viegas

Foto daqui

segunda-feira, junho 23, 2008

Despojado olhar



Sigo um rumo pensado,
e preciso,
pois é o vento que me arrasta.
Houve um tempo.
em que,imprudente,me purifiquei do pó,
Banhando-me no silêncio de oceanos e rochedos
sem suspeitar que no silêncio me afogava,
e que no despojado olhar,
crescia o medo de estar só.

Manuel Filipe, in"Nas Palmas Da Noite", pág.30, Apenas livros

Foto:José Marafona

domingo, junho 22, 2008

Em colisão



Não quero saber de dúvidas metafísicas,
Teológicas,cósmicas ou transcendentais.
Não quero saber se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha
Ou se o Big Bang aconteceu porque Deus estava com gases
E dando um traque monumental abanou o universo
Dando origem à criação.
Quero resolver-me dentro,
Calar esta revolta, pacificar-me
Encontrar um equilíbrio.
Ser cordata e consumada
E deixar de ser meteoro
Em rota de colisão.

Encandescente, in"Palavras Mutantes", pág.10, Editora Polvo

Foto:Yuri Bonder

Gargalhada



Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

Cecília Meireles

Foto:Zacarias Pereira da Mata

sábado, junho 21, 2008

RODA em torno de PAULA e do seu filho JOÃO

Vi este post na Fatyly e vou-me juntar a esta roda por uma questão de solidariedade.

"O email de Paula dirigido à "responsável do prédio":

Decidi colocar no YouTube um vídeo demonstrativo de um problema com que me deparo há já alguns anos no meu prédio, a ausência de uma rampa de acessibilidade.
Contactei as instituições competentes (Secretariado de Reabilitação,Primeiro-Ministro, Presidente da República, etc.), inclusivamente os meios de comunicação social que o divulgaram, porém, o problema mantém-se, mesmo após a Câmara Municipal de Braga ter notificado o condomínio do prédio, em 2005, para que num prazo de 10 dias construíssem a rampa exigida por lei.
Saturada de promessas atrás de promessas, constantemente "sem vislumbrar uma luz no fundo do túnel" e cansada de ouvir respostas como: "A rampa vai ser um mamarracho" e "Aqui a lei não entra", resolvi tornar público este problema, para mostrar como a observância da lei não é para todos e, como, por exemplo, razões puramente estéticas (apontadas pelas pessoas que se colocam contra a construção da rampa) podem afectar a vida das pessoas, independentemente da injustiça e da falta de bom senso que isso possa representar."

O vídeo:



Onde poderá ver o prédio* e o que significa quando o meu filho João, portador da doença de Batten, necessita de se deslocar à clínica (no prédio ao lado)para uma consulta ou exame.
Grata pela atenção
Paula Mendes
paulamendes@mail.telepac.pt
--
* na R. Prof. Machado Vilela 140-5ºc dto
4715-045 BRAGA

PS:Apelo a que mais pessoas se juntem e tentem fazer algo.

Interlúdio



Partículas
de silêncio
Superficialmente emocionado
Florescem na noite das constelações

Ritmos inalteráveis
De fragmentos de luz
Resistem à reconciliação do vazio.

A cor dos significados
Irrompe deliciosamente
Pela fronteira do silêncio

A sede eterna
Venerável e temperamental
Invade a alegria transparente

No infinito lago azul celestial
Emergem gotas ofuscantes
Criando a luz do tempo apagado

Tu dentro de mim
Criaste o vermelho flamejante
Onde as emoções navegam triunfantes

Jorge Viegas

Foto daqui

Pois



O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.

Alexandre O'Neill

sexta-feira, junho 20, 2008

Soneto



Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazio a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Gregório de Matos

Imagem daqui

Simone - Iolanda



Porque gosto.

O corpo exige



Presto distraída atenção ao meu corpo.
O que me pede, eu faço.
Às vezes, não entendo logo suas ordens, mas
cedo sempre.

Me achego a ele e indago:
-O que queres? Ah, é isso? Então, concedo.
Sempre que eu resisti
um de nós saiu-se mal.

Nas 24 horas do dia, ele pede,
e quando cala, fala
num discurso de sonhos
que me abala.

Ele sabe. Eu sei que ele sabe,
e sabe antes de mim, e nele
eu sei dobrado, sou um-e-dois
como os dois cortes de um sabre.

Affonso Romano de Sant'Anna

Foto:Gianni Candido

quinta-feira, junho 19, 2008

Uma perfeição de cão



Conheci um cão
Que falava
Que escutava
Que cantava
Que brincava
Que ladrava
Que fazia o pino
E que era um grande dançarino.

Que jogava à bola
Que perdia
Que ganhava.
Que estudava
E que andava
Comigo na escola.

E que tal?
Era ou não
Uma perfeição de cão?

Não acreditam?
Fazem mal.
Era um cão
De imaginação...

Maria Cândida Mendonça

Foto:Lukasz "Gucio" Holuj

Lenda dos Sonhos



Noite
lenta, eterna, magia dos espíritos...
Apalpo a distância do movimento...
O brilho profundo do luar
Aquece o gesto sentido do amor
E transformo-te na lenda dos sonhos.
As estrelas cantam o brilho sublime
Dentro da ternura do teu olhar
Reflectindo sobre a imensidão do oceano
O calor sensual do teu abraço.
Murmúrios delicioso povoam os céus
Embalando a doçura dos teus beijos
E o arco-íris eleva-se no horizonte
Colorindo as ondas quentes dos teus cabelos
Por onde navegam as verdades dos teus sentimentos.
Os sentidos flutuam pelo aroma verdadeiro
Da simplicidade da tua generosidade
Criando a simbiose dos teus desejos.
Na canção embriagante dos sinos celestiais
Envolvo-me na tua sinceridade
E torno-te eterna dentro do meu peito.

Jorge Viegas

Foto:Paul Bolk

quarta-feira, junho 18, 2008

Frutos



Quando a amada oferece
o seu corpo, ela sabe
que dos frutos apenas
se colhe o sabor.
É então
que os dedos
separam as películas,
que a lâmina desce e a água
e o fogo se misturam.
E é então que a vida
e a morte convivem
sob o mesmo tecto.

Albano Martins

Foto:Stanmarek

Árvore



Há uma árvore, que guarda a tua porta,
enquanto escuta os risos infantis,
vigia tuas subidas à corda,
acolhe tua casa nas ramadas,
adormece a tua fronte, na velhice,
e será tua memória muitos anos.

Manuel Filipe, in "Poemas de Manuel Filipe", pág.121, Edição de Autor

Foto:Kaushik Chatterjee

terça-feira, junho 17, 2008

A saca de orelhas



Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

1

Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
0 mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2

Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3

Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.

Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4

Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor...

Esta deve ser a tua filosofia.

5

Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
Sem te darem, primeiro, as orelhas.

Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6

Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.

É provável que te sintas logo muito melhor.

Sai, então, de baixo da pedra.

7

Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.

Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8

Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

(...)

11

Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa

Alexandre O'Neill

Imagem daqui

Mar revolto



Meu mar é revolto,
Escuro e profundo.
Guarda mais segredos
Que o Vaticano.
Quem se aventura?
Quem vai navegar?
Neste mar bravio,
Pode naufragar.
Minhas ondas irrompem
Das líquidas entranhas,
E arrebentam, nervosas,
Em qualquer terra estranha.
Sei que você olha
Com temor e desejo,
Este desconhecido,
Misterioso oceano.
Mas teu corpo treme,
Tua alma angustia-se,
Quer partir e ficar,
Quer em mim procurar
Neste meu profundo mar,
Uma paz de sonho.
Posso te assegurar
Que uma paz assim
Não encontrarás,
Dentro de mim.
Pois sou mar revolto,
Sempre ando solto,
E não tenho paz.

Marco António Cardoso

Foto:Zacarias Pereira da Mata

segunda-feira, junho 16, 2008

E-mail para o Val Carvalho



E-mail para o Val Carvalho a respeito de um conflito com a mulher, após ter recebido de uma antiga namorada, um mail com beijos e lembranças.

Nestes anos tenebrosos, não dá para esconder foi com um beijo que Judas traiu Jesus.
Foi com beijos que Messalina dissipou a cultura da autoridade na imperial Roma.
Com um simples beijo nossas mães nos deu proteção para, do distante, retornar ilesos.
Com beijos os dois se fundiram até a explosão que promete mais e, por vezes, leva até terceiros.

Afinal que instrumento é este?
Aquele que absorve, pela boca como se ao outro incorporasse,
E até no nordeste se mistura ao olfato no sensível cheiro que além de absorver, aspira.
É o maior instrumento de intimidade e jamais poderia dissolver qualquer coisa em volta.

Mas nestes tempos tenebrosos existem os beijos do ciúme,
Os beijos que de lágrimas escoem queixumes,
Os beijos que na face fria procura vida no cadáver,
Os beijos que na terra fértil promete safra.

E existem tantos beijos que uma simples tela animada de computador,
Não poderia de mim te afastares, pois se o fizeres,
Debruço-me no chão e até teus pés beijarei.
Não te vás.

José do Vale Pinheiro Feitosa

Imagem daqui

domingo, junho 15, 2008

Nossa truculência



Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

Clarice Lispector

Imagem daqui

sábado, junho 14, 2008

É



Pensei conhecer as sombras pelos nomes,
especialmente, os das sombras das esquinas,
e todos os nomes,
todas as sombras,
todas as esquinas,
quis conhecer.
Pensei conhecer as nuvens pelos nomes,
mas, fundamentalmente, o nome de cada esquina,
e todos os nomes,
todas as nuvens,
todas as esquinas
quis conhecer.
Penso já conhecer as nuvens, pela sombra,
mas não, seguramente, as esquinas de cada nome.

Manuel Filipe, in"Nas Palmas Da Noite", pág.45, Apenas Livros

Foto:Bugra Sadikoglu

sexta-feira, junho 13, 2008

Bola de dor



E esta angústia que se aloja na garganta,
Bola de picos,
Bola de gelo,
Bola de pêlo,
Bola de neve
Que se desfaz em lágrimas em sentido inverso,
E não desce,
E não engulo,
E não digiro,
E me sai pelos olhos em cascata,
Cataratas os meus olhos
De um degelo de dor.
E esta vontade de cortar a garganta
E descobrir onde se esconde
Esta bola de pêlo,
Bola de gelo,
Bola de dor,
Que me sufoca, me afoga, e me alaga,
E extirpá-la,
Arrancá-la,
Para ter olhos de ver
E garganta de respirar.

Encandescente, in"Bestiário", pág.84, Editora Polvo

Foto:Margarida Delgado

3 em 1



Fernando Pessoa-13 de Junho de 1888/30 de Novembro de 1935

Cai chuva do céu cinzento

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Al Berto-11 de Janeiro de 1948/13 de Junho de 1997

Dizem que a paixão o conheceu

Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos.

Eugénio de Andrade-19 de Janeiro de 1923/13 de Junho de 2005

Casa na chuva

A chuva,outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Oiço,mãe,é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

Imagem daqui

Amando a Lua



O sonho é uma verdade nua
Pintado de rosa
Como a imensidão da prosa.
O sentido encontra as razões
Mais sensíveis e profundas
No emaranhado das emoções
Canções povoam a auréola das estrelas
Sedutoras fontes incandescentes
Içam-se as velas transparentes
Navega-se pelos reflexos inspiradores
Captando aromas da brisa sensual
E descobre-se a linha harmoniosa do poente...
Amando na lua
O vento liberta os gestos
Os sentidos tornam-se modestos
O azul brilha nas palavras
E o coração fala pelo olhar.

Jorge Viegas

Foto:Enrique Fernandez Ferra

quinta-feira, junho 12, 2008

Soneto



Casou-se nesta terra esta e aquele.
Aquele um gozo filho de cadela,
Esta uma donzelíssima donzela,
Que muito antes do parto o sabia ele.

Casaram por unir pele com pele;
E tanto se uniram, que ele com ela
Com seu mau parecer ganha para ela,
com seu bom parecer ganha para ele.

Deram-lhe em dote muitos mil cruzados,
Excelentes alfaias, bons adornos,
De que estão os seus quartos bem ornados:

Por sinal que na porta e seus contornos
Um dia amanheceram, bem contados,
Três bacias de trampa e doze cornos.

Gregório de Matos

quarta-feira, junho 11, 2008

Os seres em suspensão



Os seres em suspensão
sejam nadadores solitários,
ou solitários amantes,
partilham esse artifício da água
que é a felicidade
que emana das nascentes.

Fica, depois, um raro perfume no ar
quando se retiram;
cheira a mar vazante,
à chuva de Verão,
que a terra respira.

Manuel Filipe, in"Nas Palmas Da Noite", pág.27, Apenas Livros

Imagem daqui

terça-feira, junho 10, 2008

Cumplicidade



No teu olhar circunspecto
contemplo uma alma triste,
disfarçadamente triste,
contida,
sem asas para alçar vôo
sem ímpeto para lançar-se no destino.

Quisera poder retribuir com outro olhar
mas os meus olhos melancólicos
são apenas cúmplices da vida,
nada mais!

Germano Rocha

Foto:Yuri Bonder

Verdes são os campos



Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasteis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

Foto:Guillermo Morgana

segunda-feira, junho 09, 2008

Momento



O vôo dos pássaros prolonga
a beleza das tardes.
E há, em nosso olhar,
um vasto
dealbar.
Tudo, em grandeza, torna-se possível.
O visível nasce do invisível.
As nuvens acenam, de repente.
E aquilo que emergiu
é o emergente.

Artur Eduardo Benevides

Foto:Christian Testanière

domingo, junho 08, 2008

La dame à la licorne



Dona Semifofa erguendo o dedo
mindinho arqueado em asa sobre a asa da
chávena (ou xícara) disse: -
- Eu sempre soube que poetas não
são gente em quem confie uma senhora -
e num sorvinho delicado rematou
a mágoa de cinquenta primaveras.
O licorne, num doce balançar do chifre esguio,
gravemente assentiu,
um pouco perturbado
pela insistência obnóxia e recatada
com que a discreta dama confundia,
ou mais que a dama os olhos vagos dela,
o chifre legendário e o metafórico
que de entre as pernas longo lhe descia
ou já de perturbado não pendia.

Torcendo as ancas disfarçadamente
para encobrir das vistas semifofas
essa homenagem à inocência delas
(como o cavalheiro que pousando a mão
assim se esconde em pudicícia o quanto
não esconda muito mais que a discrição obriga),
D. Gil cofiou a capriforme pêra
e de soslaio viu que Dona Semifofa
do branco em ferro assento resvalava
para a verdura em que as florinhas eram
de cores variegadas, salpicantes.
D. Gil era o licorne, e disse com voz cava:
- Mas eu também, minha senhora, nunca
acreditei que de confiança eles fossem.
Se acreditasse, como não teria
a mágoa imensa de não ser centauro? -

No chão, erguendo as pernas, Semifofa uivou:
- Centauro, para quê? Não há centauros.
Licornes, sim, D. Gil, vinde a meus braços.

Jorge de Sena

Rodrigo Leão & Luna Pena - Pasión



Porque gosto da música e da dança.

Dez haicais para os olhos da amada



do encontro
teus olhos chegam
dança que não destrança
aos sons que almejam.

do carinho
Teus olhos traçam
nesse tão largo afago
curvas que abraçam.

da paixão
teus olhos ardem
ao lume qual perfume
brasas que espargem.

do amor
teus olhos brilham
entre luas azuis e nuas
a paz que trilham.

da entrega
teos olhos choram
em prece que enaltece
os salmos que oram.

da doação
teos olhos formam
das ázimas lágrimas
rios que ao mar tornam.

do cotidiano
teus olhos cantam
em temor ao desamor
males que espantam.

do desejo
teus olhos vibram
herpehos de desejos
no olor que aspiram.

do prazer
teus olhos quebram
momento e alumbramento
os tons que celebram.

do ciúme
teus olhos fitam
na ronda o meneio da onda
o mar que atiçam.

Aníbal Beça

Foto:G Steve

sábado, junho 07, 2008

A Casa



Sentir de novo
Aquela dor
A pouco a pouco respirar
Aquele amor que foi
Vivido e esquecido
Em segredo
Como ninguém

Perdoar
Como perdoar
Há tanto tempo que eu queria mudar
Queria voltar
Acordar
Deixar o dia passar devagar
Assim ficar

Sentir de novo
Aquele amor
A pouco a pouco consolar
Aquela dor que foi sentida e sofrida
Em silêncio

Chegar de novo
Sentir o amor
Voltar a casa sem pensar
Deixar a luz entrar
Esquecer aquela mágoa
Sem ter medo
Como ninguém

Encontrar
Poder encontrar
Todas as coisas que eu não soube dar
Saber amar
Perdoar
Saber perdoar
Há tanto tempo que eu queria mudar
Queria voltar
Aceitar
Deixar que o tempo te faça voltar
Saber esperar

Composição:Rodrigo Leão; Letra:Adriana Calcanhoto



Foto:Yuri Bonder

sexta-feira, junho 06, 2008

Memória



Dividi a minha vida em partes.
Construí muros altos,
Paredes grossas.
Selei hermeticamente portas,
Para me dividir,
Para me separar em partes,
E ser somente,
Lembrar somente,
Aquilo que queria ser.
Mas a força que habita
Os quartos que julgava selados,
Minou paredes,
Construiu túneis,
E invadiu todos os outros,
Que selei para os proteger.
E murmura-me ao ouvido,
E ri do meu esforço inútil,
E relembra-me a cada instante,
Que a memória não se fecha,
Não há forma de a apagar,
Não há onde me esconder.

Encandescente, in"Bestiário", pág.78, Editora Polvo

Foto:Margarida Delgado

quinta-feira, junho 05, 2008

Outono na varanda



As palavras são música,
que busca a luz no escuro
apenas brilham na varanda as emoções,
e as copas vermelhas e douradas, auriflamas,
que tremulam, mais distantes, sobre o muro;

Outros crepúsculos de Outono assim se passam...

As conversas vão tecendo filigranas,
tecem cruzes
caravelas
corações,
enquanto ao lado
a noite e o silêncio
se entrelaçam.

Manuel Filipe, in"Nas Palmas Da Noite", pág.31, Apenas Livros

Foto:Jose A Gallego

Guardar



Guardar uma coisa
não é escondê-la
ou trancá-la.

Em cofre não se guarda
coisa alguma
Em cofre perde-se
a coisa à vista
Guardar uma coisa é
olhá-la, fitá-la, mirá-la
por
admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela
iluminado
Guardar uma coisa é
vigiá-la, isto é,
fazer vigília
por
ela, isto é, velar por ela,
isto é, estar acordando
por ela,
isto é, estar por ela ou ser
por ela.

Por isso melhor se guarda
o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.

Por isso se escreve, por
isso se diz, por isso
se publica,
por isso se declara
e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele,
por sua vez,
guarde o que guarda:
Guarde o que quer
que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que quer guardar.

Antonio Cícero

Imagem daqui

quarta-feira, junho 04, 2008

Tell Me Why-Declan Galbraith

video

Porque a mensagem e a música são lindas.

PS:Recebido por email

Perfume da Rosa



Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?
— Ninguém? — Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem te pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem te pintou?
Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada...
— Era de prazer ou dor? –
Mentiste, rosa, és amada,
E tu também tu amas, flor.
Mas ai!, se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.

Almeida Garrett

Foto:Roger Sonneland

terça-feira, junho 03, 2008

Soneto de Áspera Resignação



Não me digas segredos nessa voz
em que dizes também o que não dizes.
Fica o silêncio ainda mais atroz
depois de entremostradas as raízes.

Prefiro que não digas nada, nada.
Que não sejas arbusto nem canção,
mas sombra entreaberta, recortada
por um lívido e breve coração.

Já que não podes dar-me o que eu sonhara
- inteireza de ramos e raiz -,
ao menos dá-me, intacta, a sombra clara
onde se esbatam vultos e perfis.

Pois nesta solidão melhor é ter
a sombra que um segredo de mulher.

David Mourão-Ferreira

Foto:Manuel Holgado

Sedução



Palavras armadas como bombas
[em súplicas no ouvido direito da moça
[no centro do salão ao som de uma
[modinha provinciana...
sedução no rastro do beijo:
sua sede
sua pele
sua...
no recanto
desencanto
em verdade
comoves
nua:
— mereces esse toque...
no contraponto
desencontro
em libido
exaltas
sensual:
— queres o carinho devasso...
sedução no traço do queixo:
sua fonte
sua concha
sua...
Palavras lançadas como bombas
[em delírios no ouvido direito da moça
[no centro do salão ao som de um
[rock urbano...

Germano Rocha

Foto:Stanmarek

segunda-feira, junho 02, 2008

Quase



Quase eu
Quase gente
Quase sempre
Quase ausente
Quase vida
Quase nada.
Quase gesto
Quase mão
Quase toque
Quase ilusão
Quase real
Quase asa.
Quase vejo
Quase sinto
quase sei
Quase pressinto
Quase final
Quase chegada.
...
Sendo quase tudo
Sou quase nada.

Encandescente, in"Palavras Mutantes", págs.58,59 Editora Polvo

Foto:Margarida Delgado

domingo, junho 01, 2008

Prometeste



Prometeste um silêncio de árvores sábias,
mais a claridade precária,
que ainda assim ilumina;

Então subi, meu amor,
como me ensinaste,
a mais íngreme encosta da tua colina,
onde via a Lua, a dormir solitária.

Branca é a noite
na paz
que me cantaste...

Manuel Filipe, in"Nas Palmas Da noite", pág.13, Apenas Livros

Foto daqui

A rua é das crianças



Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma

constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à

rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos

olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz,

como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda‑chuva. Abrem‑se à

aragem. Não projectam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que

passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre

muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e

desaparecer.

Ruy Belo

Foto:Mike Curtis