sexta-feira, junho 30, 2006

A mais dolorosa das histórias



Silêncio
Façam silêncio
Quero dizer-vos minha tristeza
Minha saudade e a dor
A dor que há no meu canto

Oh, silenciai
Vós que assim vos agitais
Perdidamente em vão
Meu coração vos canta
A mais dolorosa das histórias
Minha amada partiu
Partiu

Oh, grande desespero de quem ama
Ver partir o seu amor

Vinícius de Moraes

Foto:Gianni Candido

E não pode esperar o coração



Toda a lua e claridade
assim te quero, assim te vejo
e se te vejo o amor invade
meu corpo inteiro e o deixa aceso
e se te vejo o amor em mim
é um cheiro morno de jardim
A tua dor doendo em mim
é um rio latejando aceso
sou um cantareiro no jardim
do sonho em que te quero e vejo
primaveras de claridade
na primavera que me invade
Toda nua és um rio aceso
de primavera e claridade
mas quero mais do que o que vejo
sentindo a angústia que me invade
esse amor que doendo em mim
arde em silêncio no jardim
Extinta a angústia que me invade
te sinto perto e junto a mim
mais do que amar a claridade
amo teu cheiro de jardim
por isso à noite durmo aceso
no dia em que te sinto e vejo.
Teu coração é um jardim
tremulando na claridade
mesmo quando doendo em mim
também é a angústia que me invade
porque no dia em que te vejo
teu corpo dorme em mim aceso
No fundo dos teus olhos vejo
longe da angústia que me invade
como o amor doendo aceso
é uma trança de claridade
o coração dentro de mim
dorme abrasado em teu jardim.

Jaci Bezerra

Foto:Stanmarek

quinta-feira, junho 29, 2006

O mínimo de nós dois



No pequeno espaço
entre teu olhar e o meu
brilha a estrela do desejo
que nos guia um para o outro

Na ausente distância
entre teus lábios e os meus
brincam e fundem-se os hormônios
da nossa química mais secreta

No mínimo silêncio
onde somente nossos corpos falam
deslizam mãos em carícias
de tatos cegos que tudo dizem

No fugaz e eterno momento
da consumação de nosso amor
gritam gargantas no gozo do prazer
da quase dor desse explodir...

Camila Sintra

Foto:Stanmarek

quarta-feira, junho 28, 2006

Videotape



Ai quem me dera que o fogo das paixões
de novo me tomasse por inteiro,
incendiada, no calor da discussão,
atiraria em você algum cinzeiro
(e botaria você) da porta a fora
jurando não querer ver sua cara,
nem ter seu corpo nunca mais, nem nada, nada!
Você iria embora e eu choraria
tal e qual uma criança desgraçada.
Para esquecer eu tomaria vinte uísques
e cairia, no sofá, já desmaiada.
Quando acordasse, abandonada e de ressaca,
me sentiria doente e mal amada
pois te queria ao meu lado, me cuidando,
me dando um sonrisal e uma trepada...
E aí me sentiria, como se estivesse,
num pronto socorro da Zona Oeste:
com frio, triste e desamparada.
Fecharia os olhos e pediria
a Deus para levar a minha alma...
Depois de dias de desespero
chegaria a conclusão de que você era o meu tempero
e então faria planos para te reconquistar,
mas você me ligaria antes de eu telefonar.
Com o coração aos pulos eu diria, calmamente,
que a gente precisava conversar.
Você concordaria e marcaríamos dia, hora e lugar...
E eu botaria a minha roupa mais gostosa
fingindo ser a coisa mais banal e você,
com sua camisa mais charmosa,
fingiria não notar.
No bar concluiríamos que não dava:
eu não gostava de você, mas te amava.
Você não me amava, mas gostava.
Era urgente que acabássemos com toda aquela loucura passional.
Como adultos de bom-tom brindaríamos à separação
com vinho e algumas lágrimas disfarçadas.
Você me levaria para casa e, depois do longo abraço de adeus
você estaria teso e eu molhada, prontos a repetirmos
a nossa estranha jornada.

Eliane Stoducto

Foto:Gianni Candido

Sonho e poesia



Te vendo ali deitado
tão calmo e sereno
tive vontade de deitar
ao teu lado...

Como sentindo o meu olhar
distante, observando teu
corpo nu, sorriu suavemente
abrindo os olhos a me fitar...

Como num sonho suave de
amor fui andando lentamente
em tua direção fitando teus
olhos a me esperar...

Te vendo ali deitado tão
perto e tão longe...tive
vontade de jogar-me
nos teus braços...

Como que sentindo o
meu desejo saltitante
e me sentindo tão sua,
foi calmamente me abrindo teus
braços...

Como num sonho suave
de amor, fui me entregando aos
desejos nos teus olhos,
fui me deixando abraçar
pelo teu corpo...

E ali deitada em teus
braços fui sentindo o
calor dos teus lábios,
a doçura das tuas mãos,
a firmeza do teu corpo...

E ali deitada ardendo em
desejos, te amo calma e feroz,
tomando o teu corpo no meu,
sentindo teu coração disparar
querendo-me tua...

E ali deitada confundindo
nossos corpos, te sinto por
inteiro, sem medo e sem pudor
te aconchego suavemente e em
movimentos lentos e ritmados
te levo a loucura e me deixo levar...

E ali deitada entre beijos
e sorrisos, entre desejos e carinhos,
sou tua... e sentindo meu corpo
desfalecer, me inunda de vida e amor...

Me faz sorrir e até chorar,
me faz amar!

Mariana Ferreira

Foto:Stanmarek

terça-feira, junho 27, 2006

A menina pó de arroz



A menina pó de arroz,
Nascida à beira do mar
Com o oceano nos olhos
E com sorrisos de lua
Nos seus lábios pequeninos
Que nunca ninguém beijou,
A menina pó de arroz,
Com seus cabelos de cobre
Onde o vento vem brincar,
Assoma à sua janela
P'ra ver a noite estrelada,
Para ouvir os sons da noite,
Para beber o luar.
Para ter em suas mãos
Macias, longas e brancas,
A noite tépida e branda,
A velha noite calada.
A menina pó de arroz,
Que por uma abreviatura
Do seu nome arrevesado
É chamada entre família
Por um nome miudinho
De marca de pó de arroz,
Com seu corpinho de fada
Que saiu de alguma fonte
Que há pouco perdeu o encanto,
Com a cabeça nas mãos,
Enquanto na casa dormem,
Veio pôr-se na janela
Para que a noite a beijasse.
A menina pó de atroz
Estará enamorada?

António Rebordão Navarro

Foto:Maury Perseval

Saber viver é vender a alma ao diabo



Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
[morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
[trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...

Alexandre O'Neill

Foto: Lubomir Arabadjiev

Intervalo



- Sobe - ordenou o senador Spiralgold ao seu piloto privativo.
O helicóptero zumbiu e tomou altura, oscilando levemente.
- Acelera! - disse apressado o senador para o piloto atento.
O piloto carregou no botão. O fundo abriu-se e o senador Spiralgold
esborrachou-se no solo, com eficácia.
- Coisas que acontecem - comentou para o piloto o espião moscovita
disfarçado de garrafa de gin.

Mário Henrique Leiria

Imagem daqui

segunda-feira, junho 26, 2006

o meu melhor poema...



Vi-o
dei-lhe a flor mais pequena
beijou-a
abraçámo-nos.


Foto:Wind

Não entendo



Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector

Foto:Maury Perseval

domingo, junho 25, 2006

Mãos



São mãos nos meus cabelos, nos meus olhos, na minha boca
são mãos treinadas em percorrer a carne viva
mãos que procuram a parte escondida
são mãos acostumadas, salientes,
que me desenham flores no corpo todo
que me ativam a glândula
são mãos que mentem o gesto
escondem de mim o resto
e, depois das mãos
os pés acima de tudo.

Ai, estão me machucando!

Xenïa Antunes

Foto:Stanmarek

Vénus Anadiômene



Como de um verde túmulo em latão o vulto
De uma mulher, cabelos brunos empastados,
De uma velha banheira emerge, lento e estulto,
Com déficits bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar;
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas,
E o redondo dos rins como a querer voar...

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor,
Particularidades que demandam lupa...

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS;
– E todo o corpo move e estende a ampla garupa
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

Arthur Rimbaud(trad. Augusto de Campos)

Imagem daqui

sábado, junho 24, 2006

O Amor



E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.

Kahlil Gibran

Foto:Stanmarek

Te quiero ahora



Yo no quiero sólo recordarte,
Te quiero presente.

No quiero que seas sólo una idea.
No quiero verte sólo en mi alma.
Quiero verte con mis ojos;
Quiero el placer de la visión.

Actual.

No quiero que llenes
un espacio lejano,
Quiero que llenes el lugar
que hay frente a mí.

Te quiero inmediata,
tal como eres en este instante.
No sólo como lo fuiste,
o como lo que seras.

Te quiero actuando
directamente sobre mis sentidos.
Accidental,momentanea y eterna.

Fluyendo.

No quiero sólo tu belleza
íntima y esencial.
Quiero también la superficie
de tu materialidad.

Te quiero sobre
las olas del tiempo.

No te quiero sólo como
posibilidad poética.
Te quiero también como poesía en acto.

Que seas placer y dolor corporal.

Jorge Luis Gutiérrez

Foto:Stanmarek

sexta-feira, junho 23, 2006

Aquela noite



Naquela noite eu disse: eu te amo

E acordei suada
Tua saliva pelo corpo
Mente nublada de sono

E levantei curada
Das marcas que deixaste em mim
Mas não sei bem se despertei feliz

Me encostei amuada
No teu peito e repeti: Eu te amo, eu te amo!
Naquela noite eu sonhei em preto e branco

Roberta Cazal

Foto:Stanmarek

Serradura



A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da "capital"
Pelo nosso Júlio Dantas ---
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil --- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "viva a Alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro

Foto:Andrzej Dragan

A hora íntima



Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes

Foto:Stanmarek

quinta-feira, junho 22, 2006

O que é o espaço?



O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível

Ana Hatherly

Foto:José Marafona

Meu Amigo



Meu Amigo, não sou o que pareço. O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, que me protege de tuas perguntas e te protege da minha negligência.

Meu Amigo, o Eu em mim mora na casa do silêncio, e lá dentro permanecerá para sempre, despercebido, inalcançável.

Não queria que acreditasses no que digo nem confiasses no que faço – pois minhas palavras são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, tuas próprias esperanças em ação.

Quando dizes: "O vento sopra do leste", eu digo: "Sim, sopra mesmo do leste", pois não queria que soubesses que minha mente não mora no vento, mas no mar.

Não podes compreender meus pensamentos, filhos do mar, nem eu gostaria que compreendesses. Gostaria de estar sozinho no mar.

Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. Contudo, mesmo assim falo do meio-dia que dança sobre os montes e da sombra de púrpura que se insinua através do vale: porque não podes ouvir as canções de minhas trevas nem ver minhas asas batendo contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas. Gostaria de ficar a sós com a noite.

Quando ascendes a teu Céu, eu desço ao meu Inferno – mesmo então chamas-me através do abismo intransponível, "Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada", e eu te respondo: "Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada" – porque não gostaria que visses meu Inferno. A chama queimaria teus olhos, e a fumaça encheria tuas narinas. E amo demais meu Inferno para querer que o visites. Prefiro ficar sozinho no Inferno.

Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. E eu, por tua causa, digo que é bom e decente amar essas coisas. Mas, no meu coração rio-me de teu amor. Mas não gostaria que visses meu riso. Gostaria de rir sozinho.

Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. E, entretanto, sou louco. Porém mascaro minha loucura. Prefiro ser louco sozinho:

Meu Amigo, tu não és meu Amigo, mas como te farei compreender? Meu caminho não é o teu caminho. Contudo juntos marchamos, de mãos dadas.

Khalil Gibran(Excertos de "O Louco")

Foto:Eric Richmond

quarta-feira, junho 21, 2006

O ópio do povo (como no tempo do Salazar) e Viva o Verão!


C.#2



Foto:Wind

Eu gosto é do Verão

Na Primavera o amor anda no ar
Na Primavera os bichos andam no ar
Na Primavera o pólen anda no ar
E eu não consigo parar de espirrar

No Verão os dias ficam maiores
No Verão as roupas ficam menores
No Verão o calor bate recordes
E os corpos libertam seus suores

Eu gosto é do Verão
De passearmos de prancha na mão
Saltarmos
De nadar e apanhar um escaldão
E ao fim do dia, bem abraçados
Patrocinado por uma bebida qualquer

No Outono a escola ameaça abrir
No Outono passo a noite a tossir
No Outono há folhas sempre a cair
E a chuva faz os prédios ruir

No Inverno o Natal é baril
No Inverno ando engripado e febril
No Inverno é Verão no Brasil
E na Suécia suicidam-se aos mil

Fúria do Açúcar


C.#2



Imagem daqui

Núpcias, o Verão



Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.

Aqui, compreendo o que se denomina glória:

o direito de amar sem medida. Existe apenas um único amor neste mundo. Estreitar um corpo de mulher e também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar realizando uma verdade que é a do sol e que será também a de minha morte. Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. A brisa é fresca e o céu, azul. Gosto imensamente desta vida e desejo falar sobre ela com liberdade: dá-me o orgulho de minha condição de homem.

Sobre o mar, o silêncio enorme do meio-dia. Todo ser belo tem o orgulho natural de sua beleza, e o mundo, hoje, deixa seu orgulho destilar por todos os poros. Diante dele, por que haveria de negar a alegria de viver, se conheço a maneira de não encerrar tudo nessa mesma alegria de viver?

Não há vergonha alguma em ser feliz.

Há um tempo para viver e um tempo para testemunhar a vida.Os deuses resplandecentes do dia retornarão à sua morte cotidiana. Mas outros deuses virão. E então, para serem mais sombrias, suas faces devastadas nascerão no coração da terra.

Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror.

Albert Camus

Foto:Sergey Ryzhkov

terça-feira, junho 20, 2006

O mundo completo



Estes gestos de vento,
estas palavras duras como a noite,
estes silêncios falsos,
estes olhares de raiva a apertarem as mãos,
estas sombras de ódio a morderem os lábios,
estes corpos marcados pelas unhas!. . .

Esta ternura inventando desejos na distância,
esta lembrança a projectar caminhos,
este cansaço a retratar as horas!...

Amamo-nos. Sem lírios
sobre os braços,
sem riachos na voz,
sem miragens nos olhos.

Amamo-nos no arame farpado,
no fumo dos cigarros,
na luz dos candeeiros públicos.

O nosso amor anda pela rua
misturado ao buzinar dos carros,
ao relento e à chuva.

O nosso amor é que brilha na noite
quando as estrelas morrem no céu dos aviões.

António Rebordão Navarro

Foto:Stanmarek

Que canto há de cantar o que perdura?



Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

Hilda Hilst

Foto:Stanmarek

segunda-feira, junho 19, 2006

O poeta



Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei.

Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.

Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.

Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem gritando: “Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles. Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: “É surdo como a pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo.” Deixo-as correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: “É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo: “É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas e os feiticeiros.”

Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.

Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, freqüentado por cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo me segue, e as sombras de minha alma me precedem, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deito-me numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.

Idéias estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.

Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma de minha alma...

Caminho na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do fundo dos vales ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e se transformam em cobras pintalgadas.

E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorgeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irônicos.

Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria.

Khalil Gibran (Extraído de "Temporais")

Foto:Stanmarek

domingo, junho 18, 2006

Loucura de Bell



Estranhos pulsos
ondas eletromagnéticas
levam minha voz
nossa voz
sua voz
sua presença virtual
que mata e alimenta minha saudade
estranhas ondas de energia
viajando ao compasso de sessenta, setenta,
cem batidas por segundo
ao compasso de um beijo imaginário
de um abraço impossível
contato intangível...
...moderno, pois
moderno?
loucura, bell!
loucura nossa
querendo o que está tão longe
porque parece perto
por que?
por que bell?
loucura nossa
ainda não aprendemos
nada sabemos sobre a modernidade
trivial: uma ligação telefônica
o descompasso de uma geração inteira
quase posso te ver
quase posso sorrir
quase posso te beijar...
...quase posso te tocar
e seguimos perdidos
nessa desordem virtual de comunicação
nessa desordem real da razão
somos herdeiros da american telephone & telegraph

Vladimir Campos(Trilogia do Futuro - momento de tristeza)

Foto:José Marafona

sábado, junho 17, 2006

Cidade 1985



De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militancia política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sed de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.

Carlos Cardoso (Moçambique)

Imagem daqui

sexta-feira, junho 16, 2006

"Por causa da cor do trigo..."



Dizia Teixeira de Pascoaes em carta a Raul Brandão: "A amizade verdadeira é o maior argumento a favor da existência de Deus". E talvez seja assim mesmo.
É no riso dos amigos que vivemos a infância. O riso dos segredos cúmplices, das pequenas infracções que ninguém descobriu, da curiosidade partilhada em alvoroço, do sopro sereno do vento nos cabelos.
É nos olhos dos amigos que recordamos a infância. Corridos os anos, a esperança já um pouco gasta, esmorecida a alegria, é nos olhos deles que encontramos por momentos a luz das manhãs de outrora, o entendimento que nasce sem palavras, a emoção do riso solto sem a censura das conveniências ou da idade, a magia das tardes em que se adivinhava a Primavera. É nos olhos dos amigos que, por segundos, repousamos na sensação de que nos afastáramos pouco antes quando na verdade os não víamos há meses, há anos, esgaçados entre o trabalho e o desencanto, o trânsito e o cansaço, a vida adiada e a morte pressentida.
É no rosto dos amigos que lemos o nosso envelhecer. As rugas, os cabelos brancos, o brilho embaciado do olhar, o ricto cada dia menos doce que nos vinca os lábios, os gestos lentos de amargura foram crescendo connosco sem que verdadeiramente déssemos por isso. É no rosto dos nossos amigos que sentimos a que ponto o tempo nos devastou, como se de repente e pela vez primeira nos olhássemos ao espelho. E é então que nos encontramos inermes, perdidos, desencantadamente lúcidos ante a vida que se esgotou sem que quase nunca saibamos porquê nem para quê. Mas também é no rosto envelhecido dos amigos que descobrimos a centelha de ternura que guardámos ainda quando os dias, de loucas aventuras sonhadas nas tardes chuvosas, se transformaram na própria chuva, miudinha e cinzenta, desinteressante e fria de renúncias.
Sentimento controverso, a amizade. Porque os amigos nos enchem a vida com a sua presença, mas também nos fazem provar o gosto acre da tristeza ou da saudade quando deles nos separamos, e nos deixam um insuportável vazio quando os perdemos. [...]
[...] um texto que todos conhecem mas que, julgo, lembra como nenhum que a amizade é memória e futuro, lágrimas e riso, serenidade e sobressalto, presença e saudade. É um texto d'O Principezinho, de A. de Saint-Exupéry. Diz o principezinho:
- Ando à procura de amigos. O que é que «estar preso» quer dizer?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo…
[...] se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de Sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo…
[…]
Foi assim que o principezinho prendeu a si a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! – exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
- A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim…
- Pois quis – disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
- Pois vou – disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…

Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel, in Clássica 21

Foto:José Marafona

PS:Este texto foi-me dado a conhecer pela T. há possivelmente 2 anos.
Dedico-o a todos os que gosto, ou seja, a todos que sabem que sou amiga deles.

Um figo



Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo.

Adília Lopes

Foto:Yuri B

quinta-feira, junho 15, 2006

A Viagem, enfim



Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa.
(...)
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.

Mário Henrique Leiria,Contos do Gin-Tonic

Imagem daqui

segunda-feira, junho 12, 2006

domingo, junho 11, 2006

outro.poema@eletronico



Moderno
transitório
fugaz...
...efémero
compatibilidade total
a última revolução de costumes
a última moda
e a gente nem se vê
não se fala, não se beija
não se ama
se entende, se atura
se compreende
loucura!
e você tao clássica e eu tão moderno - na vida
e eu tão clássico e você tao moderna - no amor
loucura!
loucura eletrónica...
matou o último poema shakespeariano

O último amor
o último suspiro da máquina de escrever
da caneta Mont Blanc
e última rosa do jardim
digitalizada
perpetuada sem perfume
causou eterno sofrimento no poeta
que morreu dactilografando o último poema
- que foi transcrito,
tambem digitalizado,
imortalizado
como o poeta não queria -
derramando a última lágrima passional da última amada
que por sua vez também foi digitalizada
por fim,
o amor foi compactado, restrito a um arquivo qualquer
de uma ala qualquer
de um museu qualquer
da world wide web...

Vladimir Campos(Trilogia do Futuro - momento de revolta)

Foto:Michał Karcz

sábado, junho 10, 2006

Frases de Camões



-Coisas impossíveis é melhor esquecê-las que desejá-las.

-Quem siso quer ter não tenha amores.

-A dor acostumada não se sente.

-Grande parte da saúde é para o doente trabalhar para ser são.

-Esforço e arte vencerão a fortuna e a própria morte.

-Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos.

-Onde reina a malícia está o receio que a faz imaginar no peito alheio.

Imagem daqui

Captus est libidine



Aqua
benedicta
unctione
cabelos
olhos
narinas
boca
dorso
mamilos
ventre
umbigo
clitóris
vagina
abençoa
me
orgasmos
in
extremis.

Lúcia Nobre

Foto:Gianni Candido

sexta-feira, junho 09, 2006

Felídeo



O dia se estanca.
Desce o infinito.
Na sombra do teu corpo
incrusto meu beijo.
Teu sorriso se ergue,
como um leão que matará
- ainda que se arrependa.
Estilhaços dos teus toques
espalham-se pelo meu corpo.
Teu olhar,
angústia cósmica,
parasita meus sonhos.
A mão,
enfim,
desata minha pele que foge.
Não se assuste com os silêncios:
todas as estrelas caíram.
Eis-me aqui,
a erguer colunas de sorrisos,
a correr pelo universo.
Os paraísos se destruíram.
Todas as pernas se abriram...
Ainda que tua boca me desafie
e que a noite jamais termine,
abraçar-me-ei em teu pescoço
pronta a partir.
Sei.
Teu nome é proibido.
Teu mundo é caos:
estás perdido em mim.
(a alma vagueia enquanto o corpo oscila)
Mesmo que nunca me ames
basta que existas,
basta que resistas.
Meu prazer é imortal.
Olhas como um gato prestes a miar.
No meio do ato
crava-se em meu seio como punhal.
Sobrevivi.

Agostina Akemi Sasaoka

Foto:Lutz Behnke

"Ao Francisco"



Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um ponto de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto:José Marafona

quinta-feira, junho 08, 2006

Abstração



Ando solta, livre,
inconsequente talvez...
Vivendo um dia após o outro,
conseguindo me despreocupar,
me desligar do que não posso resolver,
aceitando o que não posso mudar
e andou me incomodando...
Ando assim...
Meio sombra,
sentada num canto de mim, me olhando.
Ando mudando...
Uma longa fase de transição,
todo dia uma outra mulher,
um tanto antiga,
um pouco nova,
muito velha...
Ando abstrata...
Ando feliz...

Débora Böttcher

Foto:Maury Perseval

Nudez



Tirei toda a roupa
Despi-me de pudores
Na capela da leitura
Para ser decifrada.
Encontrarás em mim,
Sinais do passado,
Marcas e memórias,
Perguntas e respostas
Gravados na pele...

Tirei a máscara
Despi-me de medos
No altar da paixão
Para ser desejada.
Descobrirás em mim
Sinais do presente,
Anseios e enlevos,
Fantasias de ti
Gravados na alma.

Espero por ti...

Jacky (07.06.2006)

Foto:Maury Perseval

quarta-feira, junho 07, 2006

Loja (Canção do Cachorro)



Chibos interesseiros. Intrujas manhosos.
Bacanos desorientados à espera d’algo, sem saber o quê ao
certo,
mas com a certeza de que o saberão quando a cena finalmente
surgir.

Miúdas que quase que fazem uma mamada em troca de um algodão.
Quase que fazem, o caralho, fazem mesmo.
Caras e corpos de 40 anos que na verdade viveram apenas metade desse tempo.

Barracas impregnadas com aquele ar nauseabundo.
Muletas ligaduras hematomas sangue coagulado.
O cheiro, não se consegue disfarçar o cheiro.
Surgem vozes de todo o lado:

-"Boa branca", "boa castanha", "Serenal", "Paxilfar",
"prata", "bombas", "amoníaco", "sai do meio da rua e encosta à parede!",

"Filha da puta do carocho só faz é merda"!!!
Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,

Não comprou nada,

Não comprou…

São duas da manhã mas a loja tá aberta, como sempre.
Seja natal ou fim-do-ano, o negócio não pode parar,
não consegue parar, e por isso, logicamente não vai parar.

(Disponível num centro perto de si)

Dinheiro puxa dinheiro como vício puxa vício…
Enquanto houver gente a comprar, vai haver gente a vender,
enquanto houver gente a vender, vai haver gente a comprar…
O bicho já apanhou mais de metade dos consumidores,
mas sabes bem que a fruta dos contentores dá moca e tira as dores
faz voar sem sair do chão e afinal de contas quem é que não
gosta da sensação da…

-"Boa branca", "boa castanha", "Serenal", "Paxilfar",
"prata", "bombas", "amoníaco", "já te disse para saíres do meio da
rua e encostares à parede!",

"Filha da puta do carocho só faz é merda"!!!

Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,

Não comprou nada,
Não comprou…

Da Weasel

Imagem daqui

terça-feira, junho 06, 2006

Na ponta da língua



Eu já sei de cor e salteado os teus desejos
Sei de cada manha que te assanha e põe acesa
Como um livro aberto que conheço o conteúdo
Certo desse enredo eu me enredo e te desnudo
Página por página te abro e te folheio
Palavra por palavra te devoro e te releio
Sei de trás pra frente teu direito e teu avesso
Leio nos teus olhos tudo do começo

Sinto cada frase do teu corpo em minhas mãos
Minha boca te percorre sem qualquer pontuação
Leio cada frase sem pressa lentamente
E quando chego ao fim volto e então de trás pra frente
Cego nesta entrega fecho os olhos tudo vale
Como se teu corpo fosse todo escrito em Braille
Pois te aprendi como a lição que o corpo ensina
Na palma da mão na ponta da língua.

Lysias Ênio

Foto:Maury Perseval

A mão no arado



Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua
É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

Ruy Belo

Foto:Misha Gordin

Namoro



Sei de cor o que me apavora:
é esse medo de dizer sim
a tudo que me fascina!
É essa ânsia que me assalta
quando anoitece
e se instala sorrateira
transparecendo visivelmente
no meu olhar e nos meus gestos.
É essa simpatia indisfarçável pelo proibido
esse desejo de me molhar,
de dançar em todos os compassos
e saber que quando apago a luz,
entre o sonho e o despertar,
é a solidão que me namora mais.

Liane dos Santos

Foto:Stanmarek

segunda-feira, junho 05, 2006

Dia Mundial Do Ambiente



Como diz o Jorge Palma:

"Deixa-me rir...":)

A um peido durante o coito



Cagou-se a mulher que eu mais amava
quando a paixão se estava a consumar,
Cupido largou setas e aljava,
recolheu-se ao Olimpo a praguejar.

Sobre o leito do Amor quis o destino,
vibrando um golpe baixo e imoral,
que mais pudesse o fétido intestino
que o vigoroso instinto sexual.

Fez-se o chouriço então em farinheira,
onde havia suspiros houve risada,
a cona se fechou muito fagueira,

o caralho murchou à gargalhada
e a seus males juntou mais um achaque -
a impotência que lhe deu um traque.

Fernando Correia Pina

Foto:Victor Ivanovski

Namorando estrelas



Deixa brotar outra vez a madrugada.
Estarei de vigília
à tua espera.
Pode acontecer de me distrair
namorando estrelas
— foi assim uma vez
e não te vi passar.

Agora, não; aprendi com as girafas
e não te perco na noite.

E quando te sentir por perto
vou tremer por dentro
como nas manhãs de ressaca.
Se me olhares, sorrirei tímido;
se me gostares,
vou te amar como nunca.

Luiz de Aquino

Foto:Joris Van Daele

sábado, junho 03, 2006

Nunca Me Deixes



A noite era calma, a chuva era intensa...uma fartasana mas isso é sem ofensa..sou eu e ela naquele fartote..amor, prazer...e eu mostrava o meu forte...com muita calma..com muito amor...ela na minha alma e eu gritando por favor...

Refrão:
Nunca me deixes...preciso de ti..o amor é um loucura e tu precisas de mim...em qualquer altura em qualquer lugar...sinto a tua presença até no meu olhar...(bis)

Meu amor..minha dor...meu prazer...meu terror...razão de toda a fé e desgraça no criador...tarde de verão..noite de inverno...brisa de paraíso ou chama de inferno...és como dois em um...versão concentrada...para a minha razão..angustia da serenata...sempre ao meu lado..sempre longe de mim...sempre mais que eu suficiente...sempre assim assim

(Refrão)

Embora...agora tudo passou!!..ela endoideceu...e logo me largou...sem preconceito andar à deriva...eu andava só...e não tinha mais saida...agora meu irmão..pensa um bocado...como passarias se estivesses neste caso...entre duas paredes num lugar estreito...é como querer nadar sem ter o braço direito!!!

(Refrão)

Da Weasel

Foto:Robert Mapplethorpe

Que me venha esse homem



Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exactos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco

Bruna Lombardi

Foto:Michael Schultes

sexta-feira, junho 02, 2006

Sensação



Quando você entra dentro de mim,
Se derrete em minha boca
Um delicioso chocolate meio-amargo,
Suiço, com amêndoas.
Sei que você não gosta de chocolate.
Mas esse sabor me transborda
De um doce néctar de prazer.
Quando você entra dentro de mim,
Devagarinho, suavemente,
Eu me levito.
Tá bom, você pode não acreditar.
Mas meu corpo fica
De uma leveza
Completamente sustentável,
Exactos cinco centímetros acima da cama,
Pairando...
Na saborosa sensação que você me dá.
Quanto você entra dentro de mim,
Cada nervo meu se anestesia,
Cada músculo se relaxa
E eu fico achando
Que o paraíso é por aqui mesmo.
Quando você entra dentro de mim,
Só não te entrego a minha alma.

Mas ando louca
Pra você insistir mais um pouco.

Lucia Koury

Foto:Stanmarek

quinta-feira, junho 01, 2006

Crianças Perdidas



O brilho inocente se dissipou
Dentro de um abismo violento.
Daquela réstia sagrada
Não há rastros coloridos,
Não há emoções infantes,
Não há vida.
Ainda como o condenado cego,
Com suas cicatrizes da vergonha
Em meio à sina medonha
Que tanto o flagela.
Cresce e fenece...
Só vejo a feição ingênua,
Surda pelos latidos do desprezo.
Só vejo a coléra pálida da fome
Molestar cada vez mais
E as forças mirradas
Se queixando desta dor vertiginosa.
Cresce e fenece...
Implora, meu amigo,
Como o cão que pede comida
Pelo último suspiro vivo da tua vida.

Diego Ramires Bittencourtt

Foto:Sebastião Salgado

Ainda os lençóis



Lençóis abaixo
Lençóis acima
Trocentas diversões
Meu traço risca teu
espaço em voz e direção
Meu corpo encurva
e te submete a mais
uma exploração...

Lençóis abaixo
Lençóis acima
Perco o diapasão
Há um afinar de
corpos pelo ouvido
Quero te ouvir sempre
em movimentos entônicos
de orgasmos

Lençóis abaixo
Lençóis acima
Caio de quatro
Percebo no ato o
penetrar manso
Estou alucinado
pelos movimentos sutis
de descobertas

Lençóis abaixo
e acima...
estou em ti...
como voraz os pés
da cama...
e a teus pés eu
declamo
harmonias loucas
perdidas e lúcidas
já sem lençóis,
sanidade
ou sensatez.

Djalma Filho

Foto:Rajko Bizjak